Os prédios crescem como plantas apressadas, cobrindo as paisagens e proibindo o céu de aparecer para aqueles que caminham por entre os dias. Microchips são implantados, vacinas são criadas, aparelhos de GPS são alimentados, conexões são otimizadas. Um vendaval de informações invade a mente dos seres racionais que habitam as cidades. Mas ela não se importa.
Trancada em seu apartamento, ela mantêm a cabeça fechada para qualquer novo elemento que possa fazê-la esquecer um pouco do que lhe convém. De quem lhe convém. Sentada em um canto semi-iluminado da pequena sala de estar, que também é a sua sala de jantar e cozinha, ela repassa através de seus pensamentos todos os momentos preciosos dos últimos meses. Aqueles momentos teimosos que escorreram pelas falhas da vida cibernética, alimentada pela pobre filosofia que fundamenta a leveza de tudo que um dia já foi considerado importante.
Quando foi que deixamos o efêmero invadir o romance? Até pouco tempo atrás havia uma linha clara que diferenciava o amor da aventura. Muitos se confundiam, mas por se deixarem vendar-se e não pela falta de luz. Hoje há apenas uma grande escuridão que força todos os românticos a se jogarem em piscinas onde os mais variados tipos estão se afogando em água turva. Mas ela também não se importa…
Ela não se importa, mas não por não por se posicionar acima da humanidade. Ela não se importa porque piscinas, filosofias ou aparelhos de GPS não trarão o seu amor de volta. Porque o seu amor não está perdido. O seu amor, simplesmente, um dia resolveu que não queria mais aquela vida diferenciada e partiu. Um dia, após pentear os cabelos longos, vestir o corpo pequeno com o melhor vestido do armário e maquiar-se, o seu amor disse-lhe que daria uma chance para a ideia gritada pelos intrusos religiosos que sempre passavam por suas vidas.
─ E se eles estiverem certos, você já tentou imaginar? E se a mulher foi criada para fazer companhia ao homem e nada dessemelhante a isso puder ser tolerado? ─ E, pouco depois, beijou-a na testa e ofereceu-lhe um adeus rápido e nada dramático.
E, desde então, ela permanece assim, pensando no que o seu amor questionou antes de abandonar o que ela enxergava como um lindo palácio de sentimentos bons e duradouros. Isolada de toda a tecnologia que teimava em avançar. Ignorando os prédios que cresciam, as conexões que se otimizavam, as vacinas que eram criadas… Se alimentando de memórias. Imagens de um dia em que as duas estavam deitadas com seus corpos colados sobre o sofá vermelho e macio, com livros nas mãos, sem relógios nos pulsos e com a vida toda de um amor que não se importava com o fato de ser diferente pela frente.
Não era assim que deveríamos ser?
— Leandro Scapellato








